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32 épisodes

  • No escuro

    Que belos desastres, os de Hitchcock, Kubrick, Spielberg, Coppola ou Cimino

    21/08/2026 | 50 min
    Que lindos que são, estes desastres, que objectos fascinantes. E tão magoados!
    Para o espectador, é como o fenómeno do acidente na auto-estrada: é despertado o voyeurismo de quem passa e também o desejo salvífico, de socorrer o ferido.
    Hoje, curioso o destino do flop comercial — é disso que tratamos neste episódio de No Escuro —, aquele filme que destruiu ou mudou carreiras, que levou companhias à falência, tornou-se um objecto de culto, amado e preservado com carinho.
    Desprezados na altura, são hoje tratados com desvelo. Filmes de culto, é como lhes chamam. Revisitamos as suas histórias neste episódio de No Escuro, começando pelo emblemático As Portas do Céu, de Michael Cimino, que não só fez do realizador praticamente um pária como pôs fim ao mais autoral período da indústria norte-americana. Ou, numa perspectiva da indústria, que em consequência disso se fechou, que se tornou mais conservadora: acabou com a arrogância dos realizadores!
    São estes "falhanços" que contamos, do insucesso de bilheteira ao verdadeiro desastre. É mais do que um vol d'oiseau, portanto, tendo em estúdio os sons e as histórias de Vertigo e de Do Céu Caiu uma Estrela, hoje objectos canónicos, mas na sua época ignorados pelos espectadores; de um clássico, A Noite do Caçador, que hoje vemos prostrados de admiração, mas que na sua época tornou Charles Laughton realizador de um só filme; de 1941-Ano Louco em Hollywood, que primeiro pôs à prova a fama de Spielberg como o realizador que transformava tudo em ouro; das derrocadas que varreram do centro da indústria Cimino, Bogdanovich ou o hoje esquecido John Byrum, que nos anos 80 chegou a ser um boy wonder; do primeiro fracasso que humilhou o até então sempre vencedor Schwarzenegger...; do odiado casal, porque visto como arrogante, Cybill Shepherd/Peter Bogdanovich.
    Por ordem de antiguidade, não pela ordem em que são referidos no podcast, eis os feridos:
    Queen Kelly (1928/29) Erich von Stroheim
    Do Céu Caiu uma Estrela (1946) Frank Capra
    A Noite do Caçador (1955) Charles Laughton
    Vertigo (1958) Alfred Hitchcock
    2001 Odisseia no Espaço (1968) Stanley Kubrick
    Daisy Miller (1974) Peter Bogdanovich
    Barry Lyndon (1975) Stanley Kubrick
    New York, New York (1977) Martin Scorsese
    1941 Ano Louco em Hollywood (1979) Steven Spielberg
    As Portas do Céu (1980) Michael Cimino
    The Shining (1980) Stanley Kubrick
    Do Fundo do Coração (1981) Francis Ford Coppola
    Blade Runner (1982) Ridley Scott
    O Fio da Navalha (1984) John Byrum
    Ishtar (1987) Elaine May
    O Último Grande Herói (1993) John McTiernan
    No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano). A sonoplastia é do Tiago Orato. #levantemoraboevaoaocinema
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  • No escuro

    Há 100 novos títulos na Filmin. Excepção! Sem levantar o rabo, grande cinema

    14/08/2026 | 39 min
    Há plataformas de streaming e plataformas de streaming. Algumas transformaram-nos em consumidores (sabem de quem se fala). Outras permitem que sejamos espectadores mesmo, curadores da nossa aventura.
    Vamos directos ao assunto. A Filmin renovou no início de Julho o seu catálogo com mais de 100 filmes. Estão lá títulos aclamados como Amadeus e Voando Sobre um Ninho de Cucos, de Miloš Forman, cineasta que vai ser objecto de uma retrospectiva no Batalha Centro de Cinema, no Porto, A Insustentável Leveza do Ser, de Philip Kaufman, A Costa do Mosquito, de Peter Weir, Ran, de Akira Kurosawa, O Último Ano em Marienbad, de Alain Resnais, Ser ou Não Ser, de Lubitsch, Cais das Brumas, de Marcel Carné ("t'as d'beaux yeux, tu sais"), O Relojoeiro de Saint-Paul, de Bertrand Tavernier, um dos seus mais belos mas razoavelmente desconhecido, ou Um Homem e Uma Mulher, de Claude Lelouch.
    Mas também os chamados "clássicos modernos", como Ghost Dog: O Método do Samurai, de Jarmusch, Virgens Suicidas, de Sofia Coppola, Um Coração no Inverno, de Claude Sautet, autor de uma "música" delicada que em surdina influenciou o cinema francês, Abril e Quarto do Filho de Nanni Moretti, o David Lynch de Mulholland Drive, O Homem Elefante e Uma História Simples, o Godard de O Acossado, Pedro, o Louco, Alphaville e O Desprezo, o John Carpenter de Eles Vivem, O Nevoeiro e O Príncipe das Trevas.​
    Começamos, No Escuro, por aqui: por um cineasta que pode ser simultaneamente glacial e comovente, Jean-Pierre Melville (O Círculo Vermelho, O Exército das Sombras, Bob, o Jogador e Cai a Noite Sobre a Cidade); pelo sortilégio do cinema de Luis Buñuel, realizador que, como quem não quer a coisa, derruba as resistências e descrenças do espectador, algo que se aproxima do verdadeiro hipnotismo (A Bela de Dia, O Charme Discreto da Burguesia e Este Obscuro Objecto do Desejo); por todo o Tati, o eterno e eternamente lúcido Sr. Hulot; pela passagem de Francis Ford Coppola para o "outro lado", One From The Heart e Apocalypse Now (e Os Marginais em versão integral); por Alain Delon, o actor com as mais belas mortes no cinema, e Patrick Dewaere, que talvez tenha morrido por causa do cinema.
    No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano). #levantemoraboevaoaocinema
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    Carlos Paião voltou! Trouxe os nossos fantasmas

    07/08/2026 | 40 min
    Seguimos neste episódio o rasto de um cometa: Carlos Paião.
    Figuras da política ou do espectáculo como Mário Soares, Álvaro Cunhal, Snu Abecassis e Sá Carneiro, Doce e António Variações tiveram o seu biopic ou foram objecto de interesse de realizadores portugueses. Mas os anos 80 do século XX português nunca foram mostrados assim, como em Playback, de Sérgio Graciano. Tão tristes e melancólicos que nós (ainda) éramos.
    Comovente, isto: não é um filme sobre Carlos Paião (1957-1988); é um filme com Carlos Paião. Como uma presença que nunca desapareceu, que existe muito no fundo de nós, mas que talvez não soubéssemos que ainda vivia. Ou a nossa memória fez das suas, exerceu o seu capricho e imprimiu, antes, a "modernidade", a noite, a "movida", Portugal longe do Estado Novo e despedindo-se também da época revolucionária. A Lisboa de António Variações, por exemplo.
    Assim, existiu um de um lado e outro no extremo oposto. Mas só os dois formam o retrato completo.
    Porque é que uma figura tão provocadora, tão extravagante como Variações (1944-1984) foi entronizada depois da sua morte e Paião — que escreveu para Herman José e passou 12 canções a Amália (que só gravou O senhor extraterrestre), que venceu o Festival da Canção, que teve até aos seus 30 anos 300 canções na cabeça — permanece subterrâneo? Ou terá finalmente chegado a sua hora?
    Legendary Tigerman/Paulo Furtado acompanha-nos nestes pensamentos. Foi ele que trabalhou a banda sonora do filme — de que consta um inédito, Lisboa, Lisboa — e formou uma banda que tem como vocalista Rafael Ferreira, o intérprete de Paião no filme, que se apresentará em concertos no final do ano.
    Tão melancólicos, até sombrios, tão trapalhões e tímidos e tão desconfortáveis na nossa pele que nós éramos. Os nossos fantasmas: vemo-los em Playback.
    No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo, é: #levantemoraboevaoaocinema.
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    Eis em Portugal o filme que deixou Coppola e Scorsese boquiabertos: Soy Cuba

    31/07/2026 | 39 min
    Estava a preparar Casino (1995), Martin Scorsese, quando descobriu a primeira co-produção entre a URSS de Nikita Khrushchev e a Cuba de Fidel Castro. Virtuoso obsessivo, ficou a matutar nos impossíveis movimentos de câmara que o georgiano Mikhail Kalatozov (1903-1973) concretizara em Havana em 1964. Onde desembarcara, vindo do frio da URSS, para fazer um filme que cantasse a revolução tropical, caribenha, que descera da serra Maestra e derrubara o regime de Fulgencio Batista, e para dessa forma a acrescentar à internacional comunista. E assim prolongar, cinematograficamente, as suas invenções formais que tinham estado ao serviço da propaganda soviética nos anos 30.
    Ficaram, Scorsese e Coppola, embasbacados com Soy Cuba (1964). Scorsese ficou a cismar naquela câmara que sobe ao terraço de um edifício, onde as potências internacionais se divertem, fazendo do regime do Presidente Fulgencio Batista (1901-1973) o seu parque de diversões e espoliações, e depois desce do outro lado e mergulha numa piscina de hotel.
    Ou aquele, ainda mais "impossível": o plano começa na rua, a câmara sobe a um edifício, passa para outro, onde está instalado um atelier de charutos, percorre-o, sai pela janela e voa sobre uma rua onde decorre o funeral de um estudante morto durante uma manifestação contra Batista.
    Por isso decidiram juntar-se, Coppola e Scorsese, e distribuir Soy Cuba comercialmente nos Estados Unidos. Foi então que o filme que os soviéticos e os cubanos tinham esquecido mal tinha sido acabado — sobre essa incompreensão mútua conversamos neste episódio do podcast — pôde recomeçar a viver e ser redescoberto, três décadas depois. Com um aval de tipo absolutista de Scorsese: se tivesse sido difundido e conhecido em 1964, dizia o realizador em 2003 numa entrevista ao crítico de cinema e escritor Richard Schickel, "o cinema teria mudado", "o cinema teria sido diferente mais cedo".
    É este filme que vamos descobrir no dia 13 de Agosto. Um Verão quente (cinéfilo) confirma-se: A Saga de Anatahan, de Josef von Sternberg (dia 6), Soy Cuba, de Mikhail Kalatozov (dia 13), A Piscina, de Jacques Deray (dia 20) integram um programa de clássicos que descem às salas.
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    Tom Cruise vai salvar o mundo (de novo). Seth Rogen não sabe se se salva a si mesmo — e isso tem graça

    24/07/2026 | 36 min
    Rei morto, rei posto: ainda Ulisses não chegou a casa (mas a Odisseia de Christopher Nolan, como se previa, bateu recordes de bilheteira logo nos primeiros dias) e já as redes sociais se agitam com imagens do próximo blockbuster.
    Para vermos o filme completo, temos de esperar por Outubro, mas o trailer já está aí. Falamos de Digger de Alejandro Iñarritu, mas falamos sobretudo da sua estrela, um quase irreconhecível Tom Cruise, envelhecido e mais gordo através de próteses, no papel de um bilionário excêntrico.
    O discurso motivador do actor na cerimónia de encerramento do Mundial de Futebol, no estádio MetLife, em Nova Jersey (há quem diga que ficou desiludido porque esperava um impacto maior) começou logo a ajudar como promoção do filme. E fez lembrar o seu voo sobre outro estádio, noutra cidade, noutro país: Paris, Stade de France, final das Olimpíadas de 2024. Diferente cenário, mas a mesma vontade de tornar o mundo (a América, ele próprio) grande outra vez. Será impressão nossa ou a cadência da voz de Trump pareceu ecoar no discurso de Cruise?
    Actor corajoso e talentoso —​ não esquecemos De Olhos Bem Fechados, um salto de fé com Kubrick — é o tipo de estrela que parece engolir tudo à sua volta. Nós pusemo-nos a olhar para esse hype.
    O que nos levou a outro actor. Que em alguns casos é também realizador e produtor: Seth Rogen. Junta-se a Oliva Wilde, realizadora e actriz de O Convite, e a Penélope Cruz e Edward Norton, numa comédia dramática sobre a vida de casal. É um inesperado sucesso neste Verão. E é o pretexto para falarmos sobre intérpretes — por exemplo: haverá demasiada auto-irrisão em Rogen, o eterno anti-galã desajeitado que, apesar disso, muitas vezes fica com a miúda?—, os registos televisivo e cinematográfico, a influência do humor de canadianos e judeus em Hollywood, e até o que faz o sotaque de Penélope Cruz à sua carreira.
    E porque nem só de blockbusters ou de sucessos inesperados se faz o cinema, não esquecemos uma pequena pérola indiana que está nas salas, O Canto das Árvores Esquecidas, de Anuparna Roy — a Índia das castas, as pressões sociais, os homens que usam as mulheres, as mulheres que usam os homens mas que criam laços únicos entre elas. Um filme muito pessoal, profundamente corajoso, feito com poucos recursos — nos antípodas de Digger.
    No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo, é: #levantemoraboevaoaocinema
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