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  • Ator paulista se dedica a unir Brasil e Moçambique através da cultura
    Foi aos 10 anos de idade que Expedito Araújo decidiu que queria ser ator, inspirado pela escola em que estudava, no Rio de Janeiro, onde os alunos eram incentivados a ir ao teatro. Nascido em São Paulo, ele começou a carreira artística na adolescência. Deu vida a personagens nos palcos e na TV, mas com o passar do tempo acabou se tornando gestor cultural, trabalhando nos setores público e privado. Vinícius Assis, correspondente da RFI na África Seja atuando ou gerenciando projetos culturais, Expedito Araújo encara a arte como uma ferramenta transformadora, postura que o levou até o Timor Leste. “Fui convidado para fazer uma consultoria sobre a importância da cultura no desenvolvimento de um país”, conta à RFI. Em 2017, o brasileiro estava de férias na Tailândia quando uma amiga que vivia em Maputo, trabalhando para uma organização internacional, sugeriu que ele fosse para Moçambique ser voluntário em um orfanato. Naquela época, Araújo já havia visitado cerca de 40 países, mas nenhum africano. “Eu não tinha nenhuma curiosidade de conhecer, como a gente diz no Brasil, ‘a África’”, lembrou, destacando o hábito que muitos brasileiros têm de se referir ao segundo continente mais populoso do mundo como se fosse apenas um país. No total, a África é formada por 54 naçōes. Esta parte do planeta - que tanto tem em comum com o Brasil - não estava na lista dos destinos preferidos do ator que, no máximo, havia parado em Adis Abeba, capital da Etiópia, na escala de uma viagem para Cingapura. Mas ele acabou dando o braço a torcer e se programou para passar três semanas em contato com órfãos moçambicanos. “Primeiro foi uma descoberta. Eu não imaginava que existia no mundo uma realidade [como em Maputo]”, diz. Araújo também descreve a surpresa ao se deparar com uma cidade onde nem tudo é periferia, embora tenha ido para uma área mais carente. Nada que o desanimasse. Logo que chegou, montou uma peça com um grupo de adolescentes do local. Expedito explica que os adolescentes teriam que deixar o orfanato quando completassem 18 anos. Portanto, para ele, essa iniciação teatral poderia ser um possível caminho profissional. A primeira experiência em Moçambique - que ele mesmo classifica como "um processo muito intenso" - foi curta, mas suficiente para fazer com que ele se apaixonasse pelo país de litoral exuberante e desejasse voltar. Começou, naquele mesmo ano, o processo para conseguir um visto mais longo. O ator abriu mão do trabalho no Brasil e, na primeira oportunidade que teve, voltou. A decisão o ajudou a entender "o valor da simplicidade". Ele conta que nunca esqueceu o pedido que uma moçambicana o fez. “Uma menina, de 7 ou 8 anos, falou ‘tio posso pedir um presente? É meu aniversário.’ E eu lembro que eu já falei ‘caramba, ela vai pedir um presente e eu não vim com grana para comprar o que no Brasil me pediam de presente’. E ela me pediu uma caneta vermelha. Aquilo me sensibilizou de um jeito que eu fui para o quarto em que eu estava e comecei a chorar”, disse. A menina que tinha HIV e havia perdido os pais de forma trágica teve o simples desejo realizado pelo brasileiro. “Na verdade eu comprei um estojo de canetas e canetinhas, como a gente chama no Brasil, para pintar”, lembrou. Diversidade moçambicana Enquanto muitos ainda enxergam apenas pobreza em um dos países africanos com mais brasileiros, ele exalta a diversidade que encontrou em Moçambique. “Não é só miséria. É um país com um dos litorais mais lindos de todos os países que pude conhecer no mundo”, enfatiza e lembra, também, das enormes diferenças de realidades na capital, Maputo. Além disso, chama atenção para o que qualquer brasileiro pode constatar ao desembarcar em Moçambique: muitos moçambicanos são apaixonados pelo Brasil. “Existe uma influência muito grande do Brasil aqui em Moçambique por conta das telenovelas brasileiras. Então, eles têm um carinho muito grande pelo brasileiro”, contou. Outros dois países da África que Expedito conheceu nos últimos anos foram a África do Sul e o Lesoto. Aos 42 anos, ele vive atualmente em Maputo, onde se engaja em projetos sociais e também se empenha em divulgar a cultura brasileira, participando de alguns eventos do Centro Cultural Brasil-Moçambique, além dos que organiza por conta própria. Esta parceria começou em 2017, quando ele foi convidado a integrar um evento em homenagem ao escritor e poeta Guimarães Rosa. “Foi tentador. E veio de novo o prazer de atuar’, lembrou o brasileiro que estava há muito tempo sem trabalhar como ator e encarou o monólogo "A Terceira Margem do Rio", considerada uma das obras mais importantes de Guimarães Rosa. A partir daí Araújo passou a, uma vez por mês, fazer uma atuação, e pensou em não voltar para o Brasil na data prevista até então. “Eu comecei a ver a vida que eu levava e tudo não tinha mais sentido para mim”, lembrou. Foi quando decidiu, de vez, viver como ator e professor de teatro em Moçambique. Eventos com obras de Clarice Lispector, de quem o brasileiro se diz fã, Nelson Rodrigues e Miguel Falabella já foram organizados por ele. Missão consciente Até durante a pandemia de Covid-19, sob restriçōes de circulação e aglomeração, os eventos organizados pelo brasileiro continuaram, mas virtualmente. Foi assim que, por exemplo, falou sobre Tarsila do Amaral, considerada uma das principais artistas modernistas latino-americanas. Com duas transmissōes mensais ao vivo pela internet conseguiu alcançar quem estava inclusive fora de Moçambique. “Aí sim, começou uma missão consciente maior de trazer a cultura brasileira, aquilo que não está nas novelas, tanto para o brasileiro que está no Brasil ver, mas sobretudo para o moçambicano conhecer“, disse. Para a surpresa dele, no público dessas lives tinham pessoas que estavam em países como China, Chile, Austrália, Estados Unidos e também pela Europa aprendendo mais sobre a cultura brasileira. Apesar do maior alcance  que obteve, Araújo celebrou a volta dos eventos presenciais, deixando transparecer a paixão que um ator tem por estar perto do público. Araújo não pensa em voltar para o Brasil, pelo menos por enquanto. Encara o que faz pela cultura brasileira e pelo povo moçambicano como uma missão, como a dos professores da escola onde ele estudou que, mostrando o caminho do teatro, o fizeram seguir a carreira que seguiu. “Quando me perguntam aqui ‘quando você vai embora?’ Eu digo ‘não sei’. Talvez quando minha missão acabar e eu não sinto minha missão cumprida”, conclui.
    5/15/2022
    5:21
  • Freira brasileira cria programa de microcrédito para mulheres na Etiópia
    Ela optou por não ter filhos biológicos, mas perdeu a conta de quantas pessoas tiveram dela o amor digno de uma mãe. Como já são mais de 40 anos vivendo fora do Brasil, às vezes irmã Maria Bandieira até se esquece como algumas palavras são ditas em Português. Vinícius de Assis, correspondente da RFI na África  Mas além do sotaque gaúcho, ela não deixa de lado a fé que a faz seguir em frente, ainda mais morando em um lugar com tantos desafios. Uma religiosa que já cavou covas para enterrar muita gente, mas que se orgulha em dizer que crianças também vieram ao mundo através das mãos dela. Irmã Maria revela que uma vez pensou em desistir da missão no continente africano, diante das dificuldades iniciais, mas persistiu e chegou até aqui, ensinando e aprendendo com o povo etíope, principalmente com as mulheres. Ela destaca a diversidade da Etiópia, onde lida, na capital Adis Abeba, com médicas e outras profissionais bem esclarecidas, mas no interior o contato mais próximo foi com mulheres mais simples, pobres, muitas delas viúvas. Depois de tantas mortes devido à seca que castigou o país em 1984 ela conta que muitos homens desapareceram das vilas próximas de onde ela vivia. “Quando a gente perguntava 'onde está o pai da criança?', elas diziam 'foi procurar trabalho, foi procurar comida'”, disse. Para ela, o homem normalmente não suportaria ver os filhos morrerem de fome e todo o sofrimento causado por essa situação. “Ele sai. As mães ficam até o fim. São as últimas a morrer. Vinham ali com aquela última criança no colo... era um desespero aquele tempo”, lembra. Nascida em Erechim, Rio Grande do Sul, a freira brasileira que hoje tem 77 anos já passou mais da metade da vida na Etiópia, uma das cinco maiores economias da África, mas que ainda enfrenta grandes problemas internos, como desigualdade e conflitos. São cerca de 80 etinias no segundo país mais populoso da África. O idioma foi um dos desafios da religiosa que se mudou para a Etiópia no início dos anos 1980 e começou a dar aulas para crianças em uma área rural. “Para conseguir me comunicar com o povo, eu usava gestos, algumas palavras que sabia. Era uma dificuldade até um certo ponto, porque eles aceitavam e eu aceitava a situação. Era uma troca e nos divertíamos também”, disse a brasileira que hoje em dia conversa em pelo menos dois idiomas etíopes, oromo e amárico. Ela contou à reportagem que decidiu que queria ser freira e trabalhar em um país africano aos cinco anos, antes mesmo de ser alfabetizada. Irmã Maria tem ao todo quatro irmãos. Ela estava sempre por perto quando as três mais velhas estudavam. Um dia, viu em uma revista que as irmãs liam uma foto de freiras em missão no continente africano. A imagem nunca saiu da cabeça de Maria que cresceu e seguiu sua vocação. A mudança para a Etiópia foi em fevereiro de 1981. Os primeiros anos foram os mais difíceis, quando mudanças climáticas já mandavam seus sinais. “Cada ano a época da chuva encurtava, começava depois e terminava antes”, lembrou. Muita gente que ela conhecia morreu de fome, tuberculose e outras doenças. “O povo não tinha mais comida por toda a Etiópia. A TB (tuberculose) começou a aumentar muito no país”, conta. Naquela época a brasileira vivia a 20 km da cidade de Nekemte, em uma área sem luz, água e com transporte precário. Hoje os tempos são outros, para ela e para o país. A religiosa vive em um espaço onde funciona uma escola coordenada por freiras, em Adis Abeba. Embora dificuldades ainda existam para boa parte da população, a Etiópia conseguiu, nos últimos anos, até antes da pandemia, estar entre os países que mais cresciam. A brasileira destaca que nem todas as etnias do país ainda convivem em perfeita harmonia. Atualmente a Etiópia enfrenta uma guerra civil que começou em novembro de 2020, antes do conflito entre Rússia e Ucrânia atrair a atenção de todo o planeta. A guerra em andamento no norte etíope já deixou milhares de mortos, fez mais de 2 milhões de pessoas fugirem das áreas onde viviam, mas não foi o suficiente para fazer irmã Maria voltar para o Brasil. “Eu já vi tantas (guerras) que eu acho que estou um pouco acostumada com essa situação”, esclareceu. No país de maioria cristã, os católicos são minoria. Mas a brasileira lembra que isso nunca foi problema desde que ela chegou aqui. Prova disso é que crianças muçulmanas são mais da metade dos centenas de alunos nas escolas que a freira coordena. Ela ressalta que o trabalho dela é também voltado para a alfabetização de adultos, principalmente mulheres. O curso para aprender a ler e a escrever chegou a ser frequentado por 250 mulheres. Ela explicou que “em Adis Abeba a alfabetização é procurada porque elas se sentem muito diferentes depois de aprender a ler um pouquinho, escrever e contar o dinheiro”. No primeiro ano apareceram cinco mulheres e um homem. Mas só as alunas seguiram. “Acho que ele tinha que trabalhar”, disse. Irmã Maria começou também, há 20 anos, um programa de microcrédito para emprestar dinheiro para que mulheres pudessem começar a trabalhar e ter a própria renda, como, por exemplo, vendendo café ou legumes. As vendedoras da tradicional bebiba etíope estão por toda parte no país, assim como é comum ver pessoas vendendo batatas, tomates e cebolas na porta de casa ou na beira da estrada. O dinheiro do empréstimo era pouco, mas dava para comprar os materiais necessários para começar o pequeno negócio, depois de aulas sobre empreendedorismo, e o capital tinha que voltar para que outras mulheres pudessem se beneficiar do projeto. “Quando elas registram uma atividade que querem experimentar a gente dá um capital inicial. A gente não dá muito. Dá pouco. Procurem fazer alguma coisa com isso”, explica, antes de lamentar o fato do prograna estar atualmente suspenso por conta da pandemia. O fato de ter vivido por 15 anos no interior e depois ido para a capital, deu à religiosa experiência suficiente para entender que é fundamental respeitar as diferenças culturais neste país. Mas para ela as mulheres etíopes têm uma característica em comum: a dedicação à maternidade. “Elas são capazes de morrer realmente para o bem dessas crianças. Elas têm uma força especial. São doces, mães queridas”, diz. A vida da brasileira na Etiópia é um grande exemplo de que, sempre, mesmo para quem vai para ensinar, é possível aprender grandes lições em um país africano. “Eu vi que aqui a gente pode ser feliz com muito pouco”, conclui.
    3/12/2022
    7:29
  • Lições e desafios de uma feminista brasileira em Uganda
    Foi a convite do atual companheiro que Marília Cardoso visitou Uganda pela primeira vez, em junho de 2018, quando desembarcou na capital, Campala. Feminista interseccional e radical, como ela mesma se define, desde pequena a paulistana é apaixonada por causas sociais e viu no país do leste africano um ambiente perfeito para colocar em prática o que aprendeu nos últimos anos sobre desenvolvimento social com o recorte de gênero, bandeira que ela orgulhosamente levanta há muito tempo. Vinícius Assis, correspondente da RFI na África do Sul Hoje, aos 35 anos, Marília tem total ciência dos privilégios que a pele alva a traz nessas terras e a mantém afastada de riscos aos quais as mulheres negras locais estão expostas, mas também diz não querer se colocar como a salvadora branca tentando remediar as mazelas deste povo. Ela foi disposta a ouvir e aprender bastante sobre seu papel de estrangeira branca nessa região. Durante a pandemia, ela e outras duas brasileiras – Helen Rose e Elisa Pires – fundaram o Instituto Agali Awamu, que na língua luganda significa “juntos conseguimos”. A entidade pretende impulsionar projetos sociais no Brasil e em Uganda nas áreas de educação, gênero, raça e meio ambiente, mas tudo através de uma metodologia comunitária. A paulistana frisou que “tem que haver o respeito” para conseguir realmente envolver a comunidade no processo decisório de criação de projetos. Com essa postura, conseguiu fazer trabalhos “diferenciados” e muito mais “específicos de cada região”. Assim, era possível ver a sustentabilidade do projeto não apenas financeiramente. “Quando a comunidade participa do desenvolvimento, de todas as decisões e do design do projeto, ela acaba conseguindo dar sequência para com as próprias pernas. Muitas vezes, após um período de tempo, com muito mais eficiência e mais capacidade de competência, justamente porque foi envolvida desde o começo, foi trabalhado por eles, foi criado com sabedoria, conhecimento, vivência deles”, esclareceu. Ao tocar neste assunto, Marília deixa claro querer evitar o que classifica de intervenções, como chama o estilo de trabalho de alguns órgãos internacionais, que chegam querendo dizer para determinada comunidade como ela deve viver e solucionar seus problemas, sem escutar e envolver os locais. As três fundadoras do instituto ainda não se conhecem pessoalmente: foram apresentadas virtualmente por amigos em comum. Mas todas tinham o mesmo sonho, que sai agora da tela do computador. Marília é formada em Relações Internacionais. Por quase 10 anos trabalhou no setor privado, em posições de desenvolvimento de negócios em empresas de tecnologia da informação – um mercado predominantemente masculino.   A história dela com o continente africano começou quando, em 2017, foi para o Quênia. A ideia era fazer um trabalho voluntário, mas Marília não queria simplesmente apoiar o já lucrativo setor do “volunturismo” (como é chamado na região o mercado que lucra com viajantes que buscam fazer voluntariado em países africanos, mas nem sempre preocupados com o impacto das suas ações nos locais). Foi quando conheceu um projeto que trabalha com empoderamento econômico feminino através do futebol, quebrando normas sociais de gênero bastante enraizadas no interior queniano, uma região de extrema vulnerabilidade social e econômica. O objetivo era implementar uma incubadora de negócios para promover a independência financeira de jovens e mulheres na região. Precisavam de alguém com experiência em desenvolvimento de negócios para treinamentos na área de marketing, vendas e empreendedorismo. A brasileira apareceu com essas habilidades naquele exato momento. “Entendemos que ali tinha uma sinergia. Eu queria trabalhar com organizações locais comunitárias, com desenvolvimento social com base comunitária. Não tanto com organizações internacionais, que já têm o seu playbook internacional de como as coisas devem funcionar. Eu queria ter um trabalho mais de base de campo", explica. Era para ter sido uma experiência de quatro meses, mas ela acabou morando por três anos entre Quênia, Ruanda e finalmente Uganda. Depois de um breve período no Brasil, foi para Ruanda, o primeiro país do mundo a ter um Parlamento onde as mulheres são maioria e que há anos está entre os dez países mais igualitários do planeta, de acordo com o Relatório Global de Gênero anualmente divulgado pelo Fórum Econômico Mundial. Na lista do ano passado, o país ficou em sétimo, logo atrás da Namíbia. Ambos se destacaram no grupo onde também estavam nações como Islândia e Suécia. Foi exatamente o caminho até essas conquistas que Marília queria explorar. Apesar da grande representatividade feminina, a brasileira destaca que Ruanda ainda é um país patriarcal. Em seus estudos, acabou se confirmando a relação do cenário atual com o genocídio de 1994, quando a população masculina de Ruanda foi assassinada em massa. As mulheres sobreviveram, resistiram, ganharam mais espaço, mas ainda enfrentam muitos desafios. “Hoje, Ruanda tem uma representatividade parlamentar de mais de 60% de mulheres no governo, porém ainda com práticas extremamente patriarcais, inclusive na legislação. Então, na prática acaba não sendo um país tão igualitário como se diz ser,” explicou. Ela também conheceu projetos que não só empregavam, mas também capacitavam mulheres. Assim, amadureceu a ideia de um negócio de impacto social em busca de um equilíbrio melhor na sustentabilidade financeira, modelo que ela e as parceiras brasileiras estão levando para Uganda. Marília defende que é possível não depender somente de doações, por exemplo. “Tem incentivos de impostos. Organizações que já conseguem se enquadrar nessa nessa categoria de empreendimento social, de negócio de impacto social, são taxadas de uma maneira muito específica, com incentivos fiscais muito alinhados com propósito dos projetos para garantir essa sustentabilidade financeira”, esclarece. "Isso me surpreendeu muito, até mais do que eu vejo no Brasil hoje." Em países onde ainda há instabilidades política, social e econômica, projetos podem acabar do dia para noite pelo fim de financiamento. “Então, muitas organizações hoje estão olhando para o equilíbrio dessa sustentabilidade para começar a se transformar em um negócio social”, completou. O destino a levou para Uganda, país onde o companheiro dela nasceu. Ele é produtor cultural e músico. Em meio às restrições impostas pela pandemia, os próximos meses serão de muito trabalho. Ainda há trâmites burocráticos para a implementação do instituto e há uma campanha virtual de arrecadação de recursos para cobrir essas despesas. Marília frisa que há muito o que fazer em prol das mulheres em Uganda, onde boa parte delas já experimentou violência sexual na vida. Além disso, relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo são consideradas crime no país, uma realidade que também incomoda a feminista brasileira. “A gente não pode só falar da questão de gênero individualmente. Ela é atravessada por questões de raça, socio-econômicas, de orientação sexual em diferentes países. O feminismo interseccional tem que olhar para essa amplitude, para essas relações de poder que discriminam e afetam, inclusive, mulheres trans”, explicou. Ela lembra que Uganda ainda é um país muito violento para a população LGBTQI+. “Porém, tanto o movimento feminista como o movimento LGBTQI+ aqui são movimentos muito articulados, muito organizados e muito vocais com relação a essa problemática. Trazem muitas denúncias e formas de resistência junto ao governo e organizações internacionais”, ressaltou. Uganda é um país governado pelo mesmo presidente, Yoweri Museveni , há 35 anos. Opositores são oprimidos e a liberdade de expressão, limitada. Neste cenário, ela diz seguir sem medo e testemunha corajosas formas locais de resistência. “A gente precisa entender todas as realidades, os contextos, os sistemas de opressão, as estruturas de poder que estão realmente impostas para conseguir promover uma transformação profunda, que contemple todas essas populações minorizadas e oprimidas. Eu aprendi muito isso a partir dessa minha experiência aqui”, contou. "A ideia é que a gente consiga criar cada vez mais essa consciência de gênero não só com as mulheres, mas com os homens também, porque é a partir de uma população educada, informada, que as coisas podem se transformar”, destacou. Marília diz que a vivência em Uganda a permitiu conhecer um especial senso de comunidade. “O que é seu é meu, o que é meu é seu, eu olho por você, você está sempre olhando por mim, as crianças são criadas por toda a vizinhança, o problema meu é um problema seu, o espaço público é um espaço público nosso, não é espaço de ninguém que fica aí, à deriva, como acontece muito no Brasil”, comparou. Essa potência de comunidade, na opinião da brasileira, precisa ser cada vez mais encorajada e resgatada. “Às vezes a gente só precisa facilitar as conversas, as discussões. Talvez até trazer alguns recursos financeiros necessários para promover o desenvolvimento de soluções importantes para aquela comunidade. Mas o saber está ali”, declarou.
    1/15/2022
    5:31
  • Violência, pandemia e estereótipos fazem parte de rotina de psicóloga brasileira na África do Sul
    A psicóloga brasileira Mara Perrotti acompanha de casa, em Joanesburgo, as últimas notícias sobre a onda de violência na África do Sul, como se já não bastassem as consequências da pandemia na vida de quem mora no país que registrou quase 40% dos casos de Covid-19 no continente africano. A paulistana se disse triste e surpresa ao ver isso acontecendo, mas nada que a abale psicológicamente ou a impessa de continuar pensando em ajudar os outros. Por Vinícius Assis, correspondente da RFI na África do Sul Por ter morado em São Paulo ela diz que, “infelizmente”, já está um pouco familiarizada com manifestações violentas. “Lá acontece também. É um desastre isso, triste de se ver. Em São Paulo, a gente já convive com violência. Então, a gente fica meio 'casca grossa' com isso”, afirmou. Mas ela sabe que outros brasileiros vivendo no país ou que pensam em ir para a África do Sul acabaram ficando preocupados. “É ruim, pois a pessoa já começa a pensar em ir embora”, lamentou. Um dia antes de o governo sul-africano impor um dos confinamentos nacionais mais rígidos do mundo, no fim de março do ano passado, por conta da pandemia, ela desembarcou em Joanesburgo, onde vive com o noivo (também brasileiro). Há mais de dois anos a psicóloga trabalha remotamente, antes de boa parte da população mundial ter sido forçada a aderir a esta rotina. Ao contrário de outros psicólogos, a brasileira não vê problema em chamar quem ela atende de paciente, pois acredita que isso não significa tratá-los como doentes. “A gente parte da premissa de que paciência é a ciência da paz. Então, eles estão vindo buscar a paz. Tem gente que os chamam de clientes. Me agrada muito esse cunho de vir buscar a paz”, explicou. Logo no início da entrevista, virtual, a brasileira se revelou apaixonada pelo único filho, que tem 23 anos e está no Brasil, pela profissão e se mostra íntima da ideia de se olhar para outro ser humano como se estivesse vendo a própria imagem refletida no espelho. Não por acaso escreveu no perfil dela em uma rede social uma frase de apresentação atribuída a Gandhi que resume esse conceito:"Eu e tu somos um só, não posso te magoar sem me ferir". Atendimento gratuito Tendo percedido o quanto a pandemia estava deixando muita gente ansiosa e preocupada, Mara fez um anúncio oferecendo atendimento psicológico gratuito a brasileiros na África do Sul. O post se espalhou em redes sociais e dez mulheres procuraram a psicóloga. Quatro ainda moravam no país. Outras tinham acabado de voltar para o Brasil. Mas o anúncio dela chegou também a brasileiras no Canadá e na Austrália. Todas se sentindo sem rumo. “Eu queria muito contribuir com alguma coisa neste momento que estamos vivendo. Achei que utilizar meu trabaho, minha escuta, ia confortar um pouco coração das pessoas”, contou. Mara preza pela privacidade das pacientes, mas revelou que quase todas estavam bem mais carentes afetivamente. E como o distanciamento físico passou a ser regra de comportamento, a saída para algumas brasileiras foi se aventurar nos aplicativos de relacionamentos. Isso escancarou uma realidade enfrentada por muitas no exterior: ter que lidar com o esteriótipo de mulher fácil. “Brasileiro tem um esteriótipo internacional meio complicado, principalmente as mulheres. A mulher brasileira é vista como muito sensual, muito sexualizada. Elas acabam recebendo propostas que passam do limite do que seria gentil”, analisou. A psicóloga tem pacientes homens, mas disse que durante a pandemia só foi procurada por mulheres querendo atendimento e que a inquietação nos pacientes homens tem sido mais em relação à questão financeira. Solidão O lockdown aumentou a solidão das pessoas, ainda mais na África do Sul que, em março do ano passado, implementou um dos mais rígidos planos de confinamentos nacionais do mundo por conta da pandemia. A “falta de troca” pesou, de acordo com a psicóloga. “O ser humano é um ser social. A gente precisa do outro para saber quem a gente é, para ter essa troca. Isso começou a gerar uma ansiedade, agitação. Muitas (pacientes) apresentaram quadro de insônia porque não aguentavam mais ficar em lockdown”, contou. A brasileira explica que o movimento psíquico sabe ligar as defesas do ser humano, os instintos de cada um para sobrevivência, para se reagir a crises. “A gente só precisa usar de criatividade para reinventar esse nosso cotidiano”, completou. Mas o que era para ter sido uma alternativa criativa de solução acabou gerando ainda mais complicação para as brasileras. “Quando a gente imagina que a gente está em lockdown e a gente está querendo fazer amigos para trocar experiências para se sentir um pouco mais socialmente ativo necessariamente a gente não precisa chegar a uma conversa de cunho sexual”, disse. A psicóloga contou que todas relataram que buscaram esse recurso relataram a mesma situação: chega um momento em que o “jeito” brasileiro entra em campo na conversa, exaltando quase sempre o carnaval, o biotipo da mulher e o desempenho sexual delas. “É muito triste. Há quatro ou cinco que querem muito se relacionar mas não conseguem. Não sei te dizer se essa é mesmo uma condição para que isso não aconteça. Essa realidade foi algo que me chocou bastante. Eu tinha ideia do que era, mas agora ficou muito claro para mim”, analisou. A psicóloga diz que como profissional ela não orienta, mas ajuda cada paciente a pensar no próprio bem estar, trazendo recursos que cada um tem para lidar com isso. “Vou questionando, ajudando a pensar nesse assunto”, disse. Como experiência pessoal, ela conta que nem usa na África do Sul algumas roupas que costumava usar no Brasil, por exemplo. “Eu me adaptei com o que eu quis me adaptar”, ressaltou. Crises nos casamentos e dificuldades de se relacionarem com os filhos também foram problemas enfrentados pelas novas pacientes brasileiras, muitas distantes do resto da família e nem sempre dominando o idioma falado onde vivem atualmente. Porém, Mara disse que nenhuma delas continuou a procurar a psicóloga. “Senti que estavam só querendo apagar incêndio. Elas vinham mais para desabafo do dia a dia”, lamentou. Um hábito que ela adotou para si e recomenda a todos, ainda mais na pandemia, é fazer uma revisão da vida, se perguntando sempre se está feliz. “Eu enxergo a vida como uma viagem. Como vou aproveitar essa viagem? O que quero viver neste período? O que faz sentido para mim, o que me deixaria feliz?”, colocou. Ela revelou que ainda deseja viver tempo suficiente para ser avó, mas que é saudável pensar na possibilidade de estar vivendo o último dia sempre se perguntando: "Se hoje fosse seu último dia de vida estaria feliz com aquilo que construiu?".
    7/18/2021
    5:57
  • Pesquisadora paulista ajuda a recuperar biblioteca da mais antiga universidade sul-africana atingida por incêndio
    Uma tragédia que acabou unindo pessoas diferentes com um mesmo propósito. Foi como a paulista Gabriela Eugenio conseguiu ver, buscando um tom de positividade, a consequência do último incêndio florestal que, em abril, devastou parte da vegetação nativa da imponente Table Mountain, emblemático cartão postal da Cidade do Cabo, onde ela mora desde que se mudou para a África do Sul, há quase um ano e meio. Por Vinícius Assis, correspondente da RFI na África do Sul “O incêndio foi uma tragédia e até hoje é triste que a gente precise dessas tragédias para perceber o quanto nós temos o poder de fazer o bem quando estamos unidos, quando todos nós queremos atingir uma meta comum. Se todo mundo se unir, apesar das diferenças, a gente consegue um resultado incrível”, disse. No dia do incêndio parte da cidade foi tomada por uma gigantesca cortina de fumaça. O fogo destruiu imóveis construídos perto da montanha, forçando milhares de estudantes e moradores a evacuarem a área. O incêndio não chegou até a casa da brasileira, que vive em um bairro universitário próximo. Só que as chamas alcançaram prédios da Universidade da Cidade do Cabo, a mais antiga da África do Sul. É onde Gabriela, que é formada em Economia, atualmente faz mestrado em Desenvolvimento Social. Um dos locais mais atingidos pelo incêndio foi a biblioteca Jagger, onde estavam mais de 1.300 coleções e 85.000 livros sobre a história da África, entre obras inéditas, manuscritos, mapas, teses de doutorado, estudos sobre o regime de segregação racial do apartheid, sem falar em pinturas do século XIX. Não há cópias de boa parte deste material. Ainda não se sabe ao certo o tamanho do estrago, mas o que se viu nas últimas semanas - e também chamou atenção - foi a união de voluntários dispostos a dar continuidade ao incansável esforço de se manter documentada a história da África. “É aquela sensação de você perder uma parte do seu passado, apesar de não ser diretamente o seu passado”, declarou a paulista. O estudo que Gabriela desenvolve faz parte do centro de Humanas, onde a biblioteca ficou intacta. Mas Gabriela usava salas de estudos e computadores disponíveis na biblioteca destruída. Mesmo atualmente trabalhando bastante de casa, ela arregaçou as mangas e se juntou ao grupo de voluntários que se revezam desde o mês passado no campus da universidade para recuperar o que foi possível salvar. “ É triste pensar que alguns itens não serão recuperados. Por isso eu quis ajudar a recuperar o que ainda tinha chances para ver o lado positivo. Exatamente para superar essa tristeza, esse sentimento de perda, que surgiu a vontade de ir lá colaborar e dispor o meu tempo para recuperar o que tinha sobrevivido à tragédia”, justificou. Fogo e água destruíram materiais Ela conta que há diferentes frentes de trabalho na recuperação da biblioteca. O que não foi afetado pelo fogo pode ter sido afetado pela água utilizada para conter as chamas. Alguns materiais acabaram sendo afetados pela umidade. Cada ajuda foi e tem sido de extrema importância. “Meu grupo ficou responsável por passar por todas as caixas, os materiais que foram recuperados, e verificar se tinha mofo nesses materiais. Então, essas caixas que eram identificadas com mofo passavam para a equipe de limpeza fazer o tratamento e poder arquivar o material corretamente para depois ser realocado”, detalhou. De acordo com a a vice-reitora Mamokgethi Phakeng, graças ao revezamento de voluntários – cerca de 150 por dia – em quase duas semanas foi possível recuperar aproximadamente metade dos arquivos da biblioteca. O ministro de Educação Superior da África do Sul, Blade Nzimande, visitou recentemente o campus da Universidade da Cidade do Cabo atingido pelo incêndio no mês passado e disse que a maior parte dos prédios danificados deverá ser reparada até o fim de julho. Estudo comparativo sobre segregacionismo Gabriela está fazendo um estudo comparativo entre África do Sul, Brasil e Estados Unidos, três países que passaram por longos períodos segracionistas. A base da pesquisa da brasileira são conceitos apresentados pelo doutor Silvio Almeida, advogado, filósifo e professor, e a filósofa e escritora Djamila Ribeiro, ambos com livros publicados sobre o tema. “(Os dois) trouxeram essa ideia de que o racismo nessas sociedades, na verdade, é estrutural”, comentou. A ideia dela não é falar apenas sobre o Brasil. É mostrar que o racismo na África do Sul e nos Estados Unidos também é estrutural, exatamente, por que ele já faz parte das instituições. “Ele não depende de ações individuais, de grupos racistas. Já está permeado em todo o sistema político e econômico das três sociedades. Por isso que a gente vê tantas desigualdades sociais nesses três países”, explicou. A brasileira é otimista em relação a uma mudança deste cenário no futuro. “Atualmente há muita política de ação afirmativa, que é uma tentativa de fazer uma reparação histórica para esses grupos que sofreram desvantagens ao longo do tempo”, disse, exaltando o sistema de cotas raciais brasileiro em universidades e cargos públicos como um exemplo. “Com o tempo espero que a gente consiga ver uma maior inclusão social da população negra e africana também”, concluiu a mestranda.
    5/30/2021
    4:53

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